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30 Out 2005

Águas Passadas

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Quero confessar minha admiração pelo pentecostal fervor com que os defensores do "sim" sustentaram sua posição no recente referendo.Quero confessar minha admiração pelo pentecostal fervor com que os defensores do "sim" sustentaram sua posição no recente referendo. Se eu não sou cabeça muito dura acabaria convencido de que é preciso renunciar ao direito de defesa da vida para conservar a vida. Teria admitido que o gaudério do interiorzão, longe do delegado, do juiz e do policial, deve confiar o zelo de sua propriedade e da sua família aos latidos de um par de guaipecas. Teria concordado com que o morador da cidade, se acordar com um assaltante arrombando a porta, deve entregar-se à proteção de São Dimas, o bom ladrão, para que este amoleça o coração do colega. Sempre achei lindas aquelas revoadas de pombinhas brancas e os emocionados discursos em favor da vida. Eis aí a minha turma, eu pensava, como defensor da vida e dos direitos humanos, embora convencido da obtusidade de seus argumentos nesse específico caso.

Mas se essas são águas passadas, o fato é que elas ainda podem mover moinhos. Rio abaixo, a luta em favor da vida continua. E eu, lendo-os e ouvindo-os, adquiri a convicção de que andaremos juntos em outras correntezas. Tenho certeza de que os defensores do "sim" no recente referendo são, também, defensores do meio ambiente e dos animais. Sei que a preocupação com estes últimos vai ao detalhe: protegem seus hábitats, cuidam de um ovo de tartaruga como se fosse um bebê, conhecem o período de reprodução dos bichos, zelam por esses ciclos e pelos locais de desova. Chamam santuários esses ambientes. Associam-se e contribuem para ONGs que defendem baleias, pingüins, jacarés e sagüis. E eu acho tudo isso muito bonito.

Tenho sólidas razões, portanto, para esperar que o mesmo entusiasmo com que defenderam a proibição do comércio de armas, que a mesma indignação com que investem contra a crueldade aos animais e protegem seus acasalamentos, ninhos e hábitats, os motivará agora a se unirem a nós na luta contra o aborto. Ou não? Será necessário lembrá-los de que o feto é o indefeso filhote do bicho homem? Que o embrião humano, cuja destruição e manipulação são ardorosamente postuladas, constitui, na verdade, um ovo fecundado como, por exemplo, o reverenciado ovo do jacaré de papo amarelo?

Pois é. Espero não encontrar ninguém da turma do "sim" apoiando o projeto de liberação aborto em tramitação no Congresso (PL 1135/91). Por favor! Caso contrário, apelaria para que encarassem o embrião e o feto com a mesma benevolência que dispensam à fauna e à flora. E que pleiteassem para as práticas de aborto e de destruição de embriões o mesmo rigor com que a lei trata os crimes ambientais e os maus tratos aos animais. Poderão, agora, as águas passadas do referendo acionar o moinho da defesa da vida humana na mais desprotegida de suas formas?
Quero confessar minha admiração pelo pentecostal fervor com que os defensores do "sim" sustentaram sua posição no recente referendo. Se eu não sou cabeça muito dura acabaria convencido de que é preciso renunciar ao direito de defesa da vida para conservar a vida. Teria admitido que o gaudério do interiorzão, longe do delegado, do juiz e do policial, deve confiar o zelo de sua propriedade e da sua família aos latidos de um par de guaipecas. Teria concordado com que o morador da cidade, se acordar com um assaltante arrombando a porta, deve entregar-se à proteção de São Dimas, o bom ladrão, para que este amoleça o coração do colega. Sempre achei lindas aquelas revoadas de pombinhas brancas e os emocionados discursos em favor da vida. Eis aí a minha turma, eu pensava, como defensor da vida e dos direitos humanos, embora convencido da obtusidade de seus argumentos nesse específico caso.

Mas se essas são águas passadas, o fato é que elas ainda podem mover moinhos. Rio abaixo, a luta em favor da vida continua. E eu, lendo-os e ouvindo-os, adquiri a convicção de que andaremos juntos em outras correntezas. Tenho certeza de que os defensores do "sim" no recente referendo são, também, defensores do meio ambiente e dos animais. Sei que a preocupação com estes últimos vai ao detalhe: protegem seus hábitats, cuidam de um ovo de tartaruga como se fosse um bebê, conhecem o período de reprodução dos bichos, zelam por esses ciclos e pelos locais de desova. Chamam santuários esses ambientes. Associam-se e contribuem para ONGs que defendem baleias, pingüins, jacarés e sagüis. E eu acho tudo isso muito bonito.

Tenho sólidas razões, portanto, para esperar que o mesmo entusiasmo com que defenderam a proibição do comércio de armas, que a mesma indignação com que investem contra a crueldade aos animais e protegem seus acasalamentos, ninhos e hábitats, os motivará agora a se unirem a nós na luta contra o aborto. Ou não? Será necessário lembrá-los de que o feto é o indefeso filhote do bicho homem? Que o embrião humano, cuja destruição e manipulação são ardorosamente postuladas, constitui, na verdade, um ovo fecundado como, por exemplo, o reverenciado ovo do jacaré de papo amarelo?

Pois é. Espero não encontrar ninguém da turma do "sim" apoiando o projeto de liberação aborto em tramitação no Congresso (PL 1135/91). Por favor! Caso contrário, apelaria para que encarassem o embrião e o feto com a mesma benevolência que dispensam à fauna e à flora. E que pleiteassem para as práticas de aborto e de destruição de embriões o mesmo rigor com que a lei trata os crimes ambientais e os maus tratos aos animais. Poderão, agora, as águas passadas do referendo acionar o moinho da defesa da vida humana na mais desprotegida de suas formas?
Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

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