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24 Mai 2004

Liberdade, igualdade e ... fraternidade?

Escrito por 

Em última instância, será uma pitadinha a mais ou a menos de liberdade aqui, ou de igualdade acolá, que irá conformar essa ou aquela solução. Caberia perguntar: e a fraternidade?

O movimento que sacudiu a Europa, com epicentro na França, ao final do século XVIII, e que passou a história sob o rótulo de Revolução Francesa, inquestionavelmente, mudou os destinos do mundo ocidental.
Considerado como culminância de um movimento de pensadores dispersos pelos centros de pensamento na Europa dos séculos XVII e XVIII, entre os quais se alinham Hobbes, Locke, Spinoza, Descartes, Montesquieu, Voltaire, Diderot e Rousseau, a Revolução Francesa legou ao mundo uma proposta de estruturação do Estado e de relação entre seus concidadãos que foi sintetizada na idéia-força: liberdade, igualdade e fraternidade.
Não se pretende nessas reflexões esmiuçar, questionar, analisar, causas, fatos ou pertinência do que quer que tenha envolvido aquele movimento e suas conseqüências imediatas. O que se gostaria de trabalhar é a realidade que o mundo tem experimentado, considerada aquela proposta, que nos foi legada.
Talvez se possa dizer que, de lá para cá, a eterna busca pelo desenho ideal do Estado, (ente, sob a égide de quem os seus cidadãos esperam ver seus direitos preservados e respeitados, seus sonhos, anseios e esperanças realizados) desaguou em duas visões distintas e conflitantes e, hoje, em mais algumas formas intermediárias e de contornos não muito nítidos.
Uma delas propõe uma indiscutível prevalência da liberdade sobre a igualdade.
De forma simplista, superficial, se poderia dizer que seus seguidores defendem que os seres humanos são desiguais por natureza e que, portanto, não se deve tratar igualmente os desiguais, sendo mais adequado que se crie um ambiente de liberdade, para que cada qual tenha a oportunidade de promover seu bem-estar, segundo sua capacidade.
Diversos são os rótulos com os quais os defensores dessa linha de pensamento são identificados. Liberais, capitalistas, de direita são alguns deles.
A outra visão defende que a prevalência deva ser da igualdade sobre a liberdade.
Argumentam seus defensores que a verdadeira liberdade só seria alcançada quando se conquistasse a igualdade entre todos. Justificam-se alegando que em clima de liberdade os mais fortes, mais poderosos, jamais abririam espaços para seus concidadãos mais fracos, com menos poder de influenciar as regras da vida da coletividade.
São rotulados como de esquerda, socialistas.
Entre as duas visões extremas, se acomodam inúmeras propostas intermediárias, que, na verdade, nada mais fazem do que procurar encontrar soluções que possam se apresentar mais pertinentes às análises de todos, na medida em que valorizam aspectos positivos de uma ou outra extremidade e amainam os aspectos que tendem a ser apontados como negativos de cada uma.
Aí se alinham inúmeras correntes com designativos os mais criativos. Social-democracia, democracia-social, terceira via, neoliberalismo são alguns dos rótulos que aninham os que propugnam por essas correntes.
O que se pretende destacar nesse artigo é que todos esses esforços de identificar a receita ideal para a definição da referência perfeita a balizar as regras de convivência da coletividade, se valem de dois dos ingredientes que sintetizavam o movimento que chamamos de Revolução Francesa: a liberdade e a igualdade.
Em última instância, será uma pitadinha a mais ou a menos de liberdade aqui, ou de igualdade acolá, que irá conformar essa ou aquela solução.
Caberia perguntar: e a fraternidade?
Foi deixada de lado, somos obrigados a admitir.

Gostaria de submeter ao prezado leitor minha convicção de a fraternidade é o ingrediente que torna possível a perfeita combinação dos outros dois. Não foi sem sentido que ela foi agregada à idéia-força original.
A fraternidade teria o poder de tornar viável a convivência harmônica de liberdade e igualdade. Como dizem as senhoras ao prepararem seus bolos, a fraternidade faria a receita dar “liga”, e seria o fermento que faria o bolo da convivência, da harmonia, do equilíbrio, da paz, crescer na medida adequada.
Utopia? Talvez.
Seria o caso de se questionar: porque a fraternidade foi abandonada, no buscar-se a formatação ideal?
A resposta parece simples. Porque a fraternidade é algo que se manifesta de dentro para fora do ser humano e as soluções oferecidas partem do pressuposto de que as regras devem ter uma única direção: de fora para dentro.
Não exige esforço, não há dificuldade em se estabelecer regras (leis) que definam limites de liberdade, que devam ser respeitados pelos cidadãos de uma coletividade. È igualmente fácil impor-se que metade dos frutos de cada cidadão deva ser recolhido ao Estado para que possa ser “repartido” entre todos, privilegiando os menos afortunados.
Restringir ou ampliar liberdade, impor normas que, supostamente, contribuam para promover igualdade é, aparentemente mais fácil e, por isso, tem sido o caminho trilhado pelos que, na verdade, não querem encontrar a solução.
Não querem porque, antes de todos, por serem, em tese, mais preparados para saber, sabem que suas propostas de solução fracassarão.
Fracassarão, como têm fracassado, porque violentam a individualidade humana.
Fracassarão quando privilegiarem a liberdade porque, efetivamente, aqueles que puderem usarão essa liberdade a seu favor, burlando as regras, em detrimento dos que não possam fazer o mesmo (que o fariam, se pudessem).
Fracassarão quando privilegiarem a igualdade impondo, aos que têm mais, abrir mão de parte do que têm, em favor dos que têm menos, porque aqueles burlarão as regras do dar e esses burlarão as regras para mais receber.
A mesquinhez, a ganância, o egoísmo, a falta de fraternidade, impedem que o privilegiar a liberdade promova a igualdade.
A mesquinhez, a ganância, o egoísmo, a falta de fraternidade, impedem que o privilegiar a igualdade gere a liberdade.

A essa altura o caro leitor estará perguntando: admitindo que haja pertinência no que se disse até aqui, o que fazer?
Eu responderia: educar para a fraternidade.

O modelo educacional que a humanidade construiu, a partir do início do milênio que recém se encerrou foi se encaminhando no tempo, cada vez mais para afastar o homem da sua essência, empurrando-o, progressivamente para aprimorar a administração da sua existência.
Por esse modelo, aqueles que “sabem”, reunidos em “escolas”, “educam” aqueles que, pertencendo à geração que os sucede, acorrem a essas “escolas” (os alunos).
Assim, cada geração transmite à subseqüente o que entende como necessário para que a nova geração possa se inserir no modelo político-econômico-social em que ela, antecessora, se encontra.
Posso estar sendo radical, mas fico com a sensação de que cada geração estaria preparando a seguinte para poder usá-la, segundo sua conveniência, de forma mais adequada.
Talvez por isso, a humanidade assista o tempo passar sem que perceba evolução significativa a não ser no que tange à sua dimensão científica e tecnológica, exatamente sua dimensão mais pobre.
Não se pode editar leis que assegurem que se venha a ser 50% mais fraterno, mas se pode educar progressivamente as gerações subseqüentes a serem mais fraternas.
Isso pode e deve ser feito, ainda que venhamos a perder a capacidade de continuar manipulando as gerações que nos sucedem.
A alternativa implica em continuarmos, pela eternidade, a assistir as tragédias que, em nível internacional e nacional, dizemos nos escandalizar a cada dia.

Educar se originou do verbo “educare”, no latim, que por sua vez teve origem em outro verbo, o “educere”, que em português teria o sentido de desabrochar, exteriorizar a sua interioridade.
Etimologicamente, portanto, educar deve ser visto como um processo de dentro para fora. Assim, educar não é internalizar informações, entrouxar conhecimento. È, antes, contribuir para que desabroche a essência que em todos é boa. È boa porque é a mesma que assegura o equilíbrio, a harmonia do universo.
Precisamos parar de transformar nossos filhos em gente má.
Isso pode ser ruim de ser lido, mas é a verdade.
È a nossa geração que assegura que a deles será, também, capaz de perpetrar todo tipo de iniqüidade que hoje nos identifica.
Precisamos nos educar para educar.
Precisamos parar de impedir que as gerações que nos sucedam existencializem a sua essência.
Precisamos de liberdade, para, por intermédio de espontâneas manifestações de fraternidade, contribuirmos para a construção de um mundo em que se possa experimentar a igualdade que nos fará um pouco menos desiguais.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:29
Mario de Oliveira Seixas

Mario de Oliveira Seixas é General-de-Brigada, na reserva do Exército brasileiro. Realizou todos os cursos militares, nos níveis de graduação, mestrado e doutorado, assim como o Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército, o de mais elevado nível da carreira. É engenheiro de telecomunicações formado pelo Instituto Militar de Engenharia. No exterior, cursou o British Army Staff College (curso de Comando e Estado-Maior do Exército Britânico) e a Defence School of Language (curso da língua inglesa). Na PUC-Rio, especializou-se em Educação à Distância. Na FAAP, em São Paulo, realizou o Curso de MBA em Excelência Gerencial, com Ênfase na Gestão Pública. De 2005 à 2009 foi o Secretário Municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública da Cidade de Campinas - SP. De 2009 a 2018 foi Superintendente Geral da entidade Movimento Vida Melhor - MVM, em Campinas - SP, cujo propósito é retirar das ruas da cidade adolescentes em risco social.

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