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26 Out 2005

Nem vem com esta droga de Enem: Ou como não explicar a África

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O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ocorrido no dia 22 de setembro passado foi um primor de manipulação. A base em que tal prova é feita decorre da própria cultura de nossos professores, essencialmente deturpada tanto pelas informações e senso comum divulgados pela mídia, como pelas fontes de referência que detêm, notadamente pró-socialistas na política e antiliberais na economia.Nem vem com esta droga de Enem: Ou como não explicar a África

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ocorrido no dia 22 de setembro passado foi um primor de manipulação. A base em que tal prova é feita decorre da própria cultura de nossos professores, essencialmente deturpada tanto pelas informações e senso comum divulgados pela mídia, como pelas fontes de referência que detêm, notadamente pró-socialistas na política e antiliberais na economia. Neste sentido, questões de história e, particularmente, de geografia são um ambiente preferencial para a proliferação da desinformação, deturpação analítica e o mais tosco maniqueísmo.

Comecemos com uma, muito cara ao terceiro-mundismo:

mapas.gif

O gabarito ‘E’ considerado correto pressupõe que os problemas e conflitos internos ao continente africano só foram criados a partir da colonização/conquista européia. Seria ingênuo crer que os europeus não trouxessem problemas às sociedades africanas, mas seria mais estúpido ainda imaginar que tais situações não existissem previamente e pior, que elas ainda se mantenham por força exclusiva da partilha da África ocorrida na Conferência de Berlim em 1884.

Há muitos outros fatores que contribuem para o atual caos social na África que não se relacionam nem de longe com as relações políticas que este continente teve com a Europa. A degradação ambiental e a ‘superpopulação’[1] são os piores, afetando muito mais a vida dos africanos que qualquer conferência no século XIX.

‘Detalhes’ nada ocultos
A África Subsaariana tem um crescimento demográfico de cerca de 3% anuais enquanto que o aumento de sua produtividade agrícola não chega nem perto disto. Este incremento chega a quase o dobro da média mundial. Mesmo regiões pobres da Ásia ficam em torno de 2,2%. E quando falamos em Índia, Tailândia ou China se pensa também em crescimento industrial, ao passo que na África predomina a subsistência agrícola e o pastoreio nômade. Nos anos 80, cerca de 28 países africanos tiveram PIBs em declínio e em 1994 a África tropical teve queda de 2% de suas economias em relação ao crescimento populacional. Se formos muito otimistas e excluirmos a Nigéria de nossa análise (o país mais populoso), o continente levaria 40 anos para alcançar rendimentos que tiveram nos anos 70.[2] Nesta conjuntura de fome e desespero, não é à toa que fundamentalismos como o islâmico cresça, disseminando promessas vazias de um paraíso em algum ponto na linha tormentosa do tempo além da vida.

Nas palavras de Robert Kaplan:

“Durante décadas, os simpatizantes da África criaram racionalizações para explicar a pobreza material ao mesmo tempo que projetavam cenários otimistas para o futuro. Enquanto isto, os padrões de vida continuavam caindo verticalmente e guerras proliferavam. As explicações dadas para essa confusão – ‘colonialismo’, ‘o sistema econômico internacional perverso’, ‘corrupção das elites’ africanas, a ‘sociedade patriarcal’ e assim por diante – podiam se aplicar também a outras regiões do Terceiro Mundo que no entanto passavam à frente da África economicamente. E de lá para cá, as estatísticas vitais africanas referentes a aumento populacional, padrão de vida e violência eram as piores do planeta.”[3]

Até 1998, dos 80 conflitos travados no continente desde 1945, apenas 28 assumiram a forma tradicional de estado contra estado. Os que vêem na Europa, a responsabilidade total dos conflitos africanos, inferem que não deveriam existir se suas fronteiras não fossem alteradas e/ou criadas durante o período colonial. Parece lógico, mas assim como a estatística, eu posso mostrar através de um simples recorte de dados históricos, certos fatos para corroborar qualquer tese, enquanto oculto outros.

Obviamente não quero induzir o leitor a pensar que a colonização/conquista européia sobre a África não teve qualquer influência negativa. Esta teve sim e, ao contrário de outras regiões do globo, não teve saldos positivos, mas querer fazer crer como nossos professores de geografia e história que tudo se explica por isto, inclusive a perpetuação dos conflitos é que é falacioso.

Outro ‘detalhe’ sistematicamente negado é a presença de exércitos socialistas na África, como Cuba e URSS na Etiópia em 1975 e Cuba em Angola em 1977. Assumir isto como parte integrante do imperialismo significa entender a categoria como algo além da lógica capitalista. Em outras palavras, toda crítica implícita nas questões se refere, exclusivamente, ao sistema econômico do capitalismo. A crítica ao socialismo/comunismo simplesmente não existe.

Sempre que revoluções se instalam no mundo procuram levar em conta as instituições nacionais, mesmo que seja para nega-las. O fato de que na África todas sejam decorrentes de golpes militares revela que as forças armadas são a única e duradoura instituição africana. A evolução sociopolítica do continente tem decorrido mais dos jogos de poder entre generais que têm origem em tribos diferentes e, geralmente, rivais que de influências externas. Mas, tampouco as revoluções podem ser consideradas irreversíveis. Diferente de países como Cuba ou Vietnã no passado que trilharam rumos com coerência de acordo com o totalitarismo comunista, os regimes africanos são fortuitos e adaptados à conjuntura de suas alianças externas. Seja o Gana de Nkrumah, o Mali de Modibo Keita ou a Guiné de Sékou Touré foram todos regimes que se dissiparam.

Como conseqüência, o método militarista de alcançar o poder se torna um fim em si mesmo. O orçamento militar elevado se torna uma necessidade constante para manter a ordem, muitas vezes 50% do total do PIB, com serviço militar obrigatório de quatro anos. A sociedade se torna um espelho da caserna. O que está fora dela não tem ordem nem civilidade que não seja a dada por sua estrutura tradicional, isto é, a tribo.

Um exemplo é o Sudão. Após uma década de luta armada, a minoria negra conseguiu arrancar do governo central árabe um status de autonomia relativa, mas hoje se vêem perseguidos novamente pelos muçulmanos. Chamados de kafirs (infiéis) são alvo de constantes perseguições e um verdadeiro genocídio a que a ONU se furta a considerar como tal. Nossos professores não acham que haja imperialismo muçulmano, esta é uma categoria aplicável apenas ao europeu e ao americano. Assim como as ideologias coletivistas ocidentais, socialismo e comunismo, o coletivismo islâmico também é imperialismo e do pior estilo, que emana da cultura. Mas estes não são alvo de críticas: dois pesos e duas medidas pelos professores que elaboram as questões.

Falando em instituições, o que significa a educação na África? Apenas um meio de se tornar ‘colarinho branco’, isto é, de se atingir um cargo público. Países como a Costa do Marfim já na década de 80 apresentavam saturação em seu quadro de funcionários.

A economia não pode tampouco ser analisada somente em setor privado e público. O modelo de desenvolvimento ocidental é essencialmente urbano e como isto se conecta a uma região do globo onde o principal esteio econômico está na mineração é uma das razões de por que o dinheiro não migra para as cidades como migram, no entanto, camponeses e refugiados.

O comércio externo por sua vez, prima por itens de baixo valor agregado. Nos anos 70 quando os indicadores sociais eram visivelmente melhores do que hoje em dia, a Europa era responsável por 65% das importações de minérios do continente africano, o Japão com 15% e a América do Norte por apenas 4%. Em contrapartida, meros 0,5% da produção mundial de manufaturados era proveniente da África. Ao passo que os EUA exportavam para a América Latina 48% de seus produtos manufaturados para os países subdesenvolvidos, a África ficava com apenas 8%. E enquanto que o Japão enviava 45% de suas exportações para países pobres do sudeste asiático, a África absorvia 17%. Mesmo após duas décadas de independência, o continente tem o escambo como um dos aspectos essenciais de sua economia.[4]

Se nem o comunismo e suas variantes socialistas deram certo na África, o que dizer do capitalismo? Falar em capitalismo significa falar em produtividade. E se existe uma palavra ausente nos dicionários de idiomas e dialetos africanos provavelmente é esta. A abundância de terras associada à baixa densidade demográfica no continente permitiu no passado aos africanos prover suas necessidades materiais com poucos dias de trabalho. Claro que falo de necessidades básicas, mas mesmo assim se compararmos o continente com seus pares latino-americano e asiático, veremos que a produtividade nunca foi um requisito para sua efetiva colonização. De certo modo, a África paga hoje um preço por não ter tido uma colonização mais profunda e internalizada como foi o caso da América Latina e Ásia. O relaxamento do trabalho e a ausência quase completa da capacidade de previsão (por falta de treino) são características historicamente adquiridas e praticadas há séculos.

E quando se pensa em discriminação sexual, na África a situação é inversa em certo sentido: se em muitos países é vedado às mulheres terem uma maior participação na vida social, no ‘continente negro’ elas são prioridade para o trabalho... Muitas vezes, o grosso do trabalho é atividade exclusivamente feminina. Se aos muçulmanos cabe a exclusão política e social da mulher, aos africanos ao sul do Saara fica a incorporação quase que exclusiva das mulheres no mundo do trabalho em muitas atividades tribais.

Nestas condições como realizar a chamada “acumulação primitiva” de que falava Marx para dar início ao capitalismo? Exemplos como o “investimento humano” como estratégia de mobilização econômica, realizado na Guiné entre 1960-1961 são rapidamente abandonados. A Tanzânia é um exemplo disto, naquele país pode-se esperar 40 anos para obter uma linha de telefone fixo.[5] Isto é tão profundamente arraigado que chega a afetar o desempenho de guerrilhas, como o PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e do Cabo Verde:

“Não devemos esquecer que há erros, faltas, atrasos: por exemplo, muitas emboscadas mal preparadas, tendência em chegar atrasado no lugar previsto, ausência de vigilância, importante nos rios, ainda que estejamos bem armados para atirar nos barcos, falta de coragem para atirar nos aviões, embora saibamos que, quanto mais atiremos neles, mais os aviadores têm medo. Não obstante saibamos que em Quitafine, e em outras regiões, como Boé, nossos companheiros foram capazes de combater os aviões portugueses com uma coragem extraordinária, muitos não seguiram este exemplo. Em muitos lugares atrasamos nossos ataques, imobilizamos nossa infantaria durante muito tempo. Muitos carregadores de patchanga[6] foram estragados, porque, uma vez carregados, não foram esvaziados nos combates. Não fizemos os necessários reconhecimentos antes de passar aos ataques. O resultado é que, muitas vezes, durante os ataques, fomos surpreendidos pelas minas. Não soubemos traçar os planos necessários, tendo em vista os ataques: um dirigente pode definir um plano geral de ataque, mas, quando se trata de planos mais pormenorizados, os próprios comandantes, no momento do ataque, se sentiram incapazes. Portanto, não pudemos extrair o máximo rendimento desses ataques. Devemos reconhecer, por exemplo, que até hoje só fizemos prisioneiros portugueses durante dois ataques: a Cantancunda e a Bissassema. É muito pouco, tendo em vista todos os ataques que fizemos aos seus quartéis. Quando os portugueses fogem de mais de vinte quartéis, avaliamos as oportunidades que perdemos de matar ou aprisionar um grande número de inimigos. A falta de vigilância, de constância e de perseverança é infelizmente um dos defeitos característicos de nossas forças armadas.”[7]

No entanto, se os fatores de desenvolvimento capitalista são desprezados, seus efeitos são desejados como se pode constatar pelas importações de luxo feitas pelas elites africanas. Some-se a isto o fato de que a pressão demográfica continua, particularmente, na zona do Sahel que há muito já rompeu o equilíbrio de uma população tecnologicamente primitiva com seu meio natural. Desde o pós-guerra, certas regiões do mundo subdesenvolvido se caracterizam pela alta da natalidade com mortalidade em queda devido ao maior acesso a vacinas e medicamentos, o que significa no final das contas, pelo abrupto aumento do crescimento vegetativo sem correspondente incremento da produtividade agrícola.

Crescimento demográfico, instituições sociais, imperialismo interno, pífio comércio externo, falta de produtividade, ausência de políticas sociais, discriminação e superexploração feminina... São alguns ‘detalhes’ sintomaticamente negados por quem ‘ensina’ a África para nossos alunos.

Além das ideologias

Aliás, entender a geopolítica regional (e a global) segundo categorias ideológicas se torna falacioso:

“O apoio da Argélia à Frente Polisário [no Marrocos] não é devido ao respeito excepcional ao direito dos povos à autodeterminação. Como explicar o apoio de israelense, até 1977, ao regime etíope que reivindica o marxismo-leninismo a não ser pelo interesse de Israel em não ver o mar Vermelho se tornar um lago árabe? Os interesses de Estado determinam as políticas. Do mesmo modo a China de Mao Zedong apoiava a FNLA e a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), também ajudados pelos Estados Unidos e pelo Zaire [atual República Democrática do Congo] porque os dois movimentos se opunham ao MPLA, apoiado pela URSS. Se a dimensão ideológica fosse determinante, a FPLE teria sido apoiada pelos países ‘socialistas’”[8]

Da mesma forma é interessante observar a posição européia, aparentemente ambígua do ponto de vista ideológico. Quando os movimentos revolucionários africanos tinham ingrediente nacionalista era de se esperar algum apoio europeu. Mas, sua oposição aos regimes nacionalistas devido ao seu controle de capitais, os empurrava para a URSS, mesmo quando contrários ao marxismo-leninismo. Já os EUA e sua posição visceralmente contrária à influência soviética os tornava mais pragmáticos.

A ideologia é totalmente inócua para se entender a África. A geopolítica e a razão de estado é que a explica.

[1] Esta não deve ser analisada em números absolutos tão somente, mas, sobretudo na relação do contingente populacional com o meio natural e social em que se insere. Isto é, não se pode considerar deste ponto de vista o Japão um país superpopuloso, mas Bangladesh sim. Enquanto que o primeiro tem seus cidadãos provendo muito além de suas necessidades básicas, o segundo tem seu povo se esforçando para superar um limite de sobrevivência que o antepassado humano já garantira no Neolítico.[voltar]

[2] KAPLAN, Robert D. Os Confins da Terra: uma viagem na véspera do século 21. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 29.[voltar]

[3] Idem, pp. 25-26.[voltar]

[4] CHALIAND, Gérard. A Luta pela África: estratégias das potências. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 37.[voltar]

[5] Na Palestina são nove anos e em Uganda, 20. Cf. Ian Pearson. Atlas of the Future. MacMillan, EUA, 1998, p. 56.[voltar]

[6] Como chamavam a uma arma automática de fabricação soviética, o PPSM.[voltar]

[7] Amílcar Cabral apud CHALIAND. Op. cit., p. 52.[voltar]

[8] CHALIAND. Op. Cit., p. 47. [voltar]

Nem vem com esta droga de Enem: Ou como não explicar a África

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ocorrido no dia 22 de setembro passado foi um primor de manipulação. A base em que tal prova é feita decorre da própria cultura de nossos professores, essencialmente deturpada tanto pelas informações e senso comum divulgados pela mídia, como pelas fontes de referência que detêm, notadamente pró-socialistas na política e antiliberais na economia. Neste sentido, questões de história e, particularmente, de geografia são um ambiente preferencial para a proliferação da desinformação, deturpação analítica e o mais tosco maniqueísmo.

Comecemos com uma, muito cara ao terceiro-mundismo:

mapas.gif

O gabarito ‘E’ considerado correto pressupõe que os problemas e conflitos internos ao continente africano só foram criados a partir da colonização/conquista européia. Seria ingênuo crer que os europeus não trouxessem problemas às sociedades africanas, mas seria mais estúpido ainda imaginar que tais situações não existissem previamente e pior, que elas ainda se mantenham por força exclusiva da partilha da África ocorrida na Conferência de Berlim em 1884.

Há muitos outros fatores que contribuem para o atual caos social na África que não se relacionam nem de longe com as relações políticas que este continente teve com a Europa. A degradação ambiental e a ‘superpopulação’[1] são os piores, afetando muito mais a vida dos africanos que qualquer conferência no século XIX.

‘Detalhes’ nada ocultos
A África Subsaariana tem um crescimento demográfico de cerca de 3% anuais enquanto que o aumento de sua produtividade agrícola não chega nem perto disto. Este incremento chega a quase o dobro da média mundial. Mesmo regiões pobres da Ásia ficam em torno de 2,2%. E quando falamos em Índia, Tailândia ou China se pensa também em crescimento industrial, ao passo que na África predomina a subsistência agrícola e o pastoreio nômade. Nos anos 80, cerca de 28 países africanos tiveram PIBs em declínio e em 1994 a África tropical teve queda de 2% de suas economias em relação ao crescimento populacional. Se formos muito otimistas e excluirmos a Nigéria de nossa análise (o país mais populoso), o continente levaria 40 anos para alcançar rendimentos que tiveram nos anos 70.[2] Nesta conjuntura de fome e desespero, não é à toa que fundamentalismos como o islâmico cresça, disseminando promessas vazias de um paraíso em algum ponto na linha tormentosa do tempo além da vida.

Nas palavras de Robert Kaplan:

“Durante décadas, os simpatizantes da África criaram racionalizações para explicar a pobreza material ao mesmo tempo que projetavam cenários otimistas para o futuro. Enquanto isto, os padrões de vida continuavam caindo verticalmente e guerras proliferavam. As explicações dadas para essa confusão – ‘colonialismo’, ‘o sistema econômico internacional perverso’, ‘corrupção das elites’ africanas, a ‘sociedade patriarcal’ e assim por diante – podiam se aplicar também a outras regiões do Terceiro Mundo que no entanto passavam à frente da África economicamente. E de lá para cá, as estatísticas vitais africanas referentes a aumento populacional, padrão de vida e violência eram as piores do planeta.”[3]

Até 1998, dos 80 conflitos travados no continente desde 1945, apenas 28 assumiram a forma tradicional de estado contra estado. Os que vêem na Europa, a responsabilidade total dos conflitos africanos, inferem que não deveriam existir se suas fronteiras não fossem alteradas e/ou criadas durante o período colonial. Parece lógico, mas assim como a estatística, eu posso mostrar através de um simples recorte de dados históricos, certos fatos para corroborar qualquer tese, enquanto oculto outros.

Obviamente não quero induzir o leitor a pensar que a colonização/conquista européia sobre a África não teve qualquer influência negativa. Esta teve sim e, ao contrário de outras regiões do globo, não teve saldos positivos, mas querer fazer crer como nossos professores de geografia e história que tudo se explica por isto, inclusive a perpetuação dos conflitos é que é falacioso.

Outro ‘detalhe’ sistematicamente negado é a presença de exércitos socialistas na África, como Cuba e URSS na Etiópia em 1975 e Cuba em Angola em 1977. Assumir isto como parte integrante do imperialismo significa entender a categoria como algo além da lógica capitalista. Em outras palavras, toda crítica implícita nas questões se refere, exclusivamente, ao sistema econômico do capitalismo. A crítica ao socialismo/comunismo simplesmente não existe.

Sempre que revoluções se instalam no mundo procuram levar em conta as instituições nacionais, mesmo que seja para nega-las. O fato de que na África todas sejam decorrentes de golpes militares revela que as forças armadas são a única e duradoura instituição africana. A evolução sociopolítica do continente tem decorrido mais dos jogos de poder entre generais que têm origem em tribos diferentes e, geralmente, rivais que de influências externas. Mas, tampouco as revoluções podem ser consideradas irreversíveis. Diferente de países como Cuba ou Vietnã no passado que trilharam rumos com coerência de acordo com o totalitarismo comunista, os regimes africanos são fortuitos e adaptados à conjuntura de suas alianças externas. Seja o Gana de Nkrumah, o Mali de Modibo Keita ou a Guiné de Sékou Touré foram todos regimes que se dissiparam.

Como conseqüência, o método militarista de alcançar o poder se torna um fim em si mesmo. O orçamento militar elevado se torna uma necessidade constante para manter a ordem, muitas vezes 50% do total do PIB, com serviço militar obrigatório de quatro anos. A sociedade se torna um espelho da caserna. O que está fora dela não tem ordem nem civilidade que não seja a dada por sua estrutura tradicional, isto é, a tribo.

Um exemplo é o Sudão. Após uma década de luta armada, a minoria negra conseguiu arrancar do governo central árabe um status de autonomia relativa, mas hoje se vêem perseguidos novamente pelos muçulmanos. Chamados de kafirs (infiéis) são alvo de constantes perseguições e um verdadeiro genocídio a que a ONU se furta a considerar como tal. Nossos professores não acham que haja imperialismo muçulmano, esta é uma categoria aplicável apenas ao europeu e ao americano. Assim como as ideologias coletivistas ocidentais, socialismo e comunismo, o coletivismo islâmico também é imperialismo e do pior estilo, que emana da cultura. Mas estes não são alvo de críticas: dois pesos e duas medidas pelos professores que elaboram as questões.

Falando em instituições, o que significa a educação na África? Apenas um meio de se tornar ‘colarinho branco’, isto é, de se atingir um cargo público. Países como a Costa do Marfim já na década de 80 apresentavam saturação em seu quadro de funcionários.

A economia não pode tampouco ser analisada somente em setor privado e público. O modelo de desenvolvimento ocidental é essencialmente urbano e como isto se conecta a uma região do globo onde o principal esteio econômico está na mineração é uma das razões de por que o dinheiro não migra para as cidades como migram, no entanto, camponeses e refugiados.

O comércio externo por sua vez, prima por itens de baixo valor agregado. Nos anos 70 quando os indicadores sociais eram visivelmente melhores do que hoje em dia, a Europa era responsável por 65% das importações de minérios do continente africano, o Japão com 15% e a América do Norte por apenas 4%. Em contrapartida, meros 0,5% da produção mundial de manufaturados era proveniente da África. Ao passo que os EUA exportavam para a América Latina 48% de seus produtos manufaturados para os países subdesenvolvidos, a África ficava com apenas 8%. E enquanto que o Japão enviava 45% de suas exportações para países pobres do sudeste asiático, a África absorvia 17%. Mesmo após duas décadas de independência, o continente tem o escambo como um dos aspectos essenciais de sua economia.[4]

Se nem o comunismo e suas variantes socialistas deram certo na África, o que dizer do capitalismo? Falar em capitalismo significa falar em produtividade. E se existe uma palavra ausente nos dicionários de idiomas e dialetos africanos provavelmente é esta. A abundância de terras associada à baixa densidade demográfica no continente permitiu no passado aos africanos prover suas necessidades materiais com poucos dias de trabalho. Claro que falo de necessidades básicas, mas mesmo assim se compararmos o continente com seus pares latino-americano e asiático, veremos que a produtividade nunca foi um requisito para sua efetiva colonização. De certo modo, a África paga hoje um preço por não ter tido uma colonização mais profunda e internalizada como foi o caso da América Latina e Ásia. O relaxamento do trabalho e a ausência quase completa da capacidade de previsão (por falta de treino) são características historicamente adquiridas e praticadas há séculos.

E quando se pensa em discriminação sexual, na África a situação é inversa em certo sentido: se em muitos países é vedado às mulheres terem uma maior participação na vida social, no ‘continente negro’ elas são prioridade para o trabalho... Muitas vezes, o grosso do trabalho é atividade exclusivamente feminina. Se aos muçulmanos cabe a exclusão política e social da mulher, aos africanos ao sul do Saara fica a incorporação quase que exclusiva das mulheres no mundo do trabalho em muitas atividades tribais.

Nestas condições como realizar a chamada “acumulação primitiva” de que falava Marx para dar início ao capitalismo? Exemplos como o “investimento humano” como estratégia de mobilização econômica, realizado na Guiné entre 1960-1961 são rapidamente abandonados. A Tanzânia é um exemplo disto, naquele país pode-se esperar 40 anos para obter uma linha de telefone fixo.[5] Isto é tão profundamente arraigado que chega a afetar o desempenho de guerrilhas, como o PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e do Cabo Verde:

“Não devemos esquecer que há erros, faltas, atrasos: por exemplo, muitas emboscadas mal preparadas, tendência em chegar atrasado no lugar previsto, ausência de vigilância, importante nos rios, ainda que estejamos bem armados para atirar nos barcos, falta de coragem para atirar nos aviões, embora saibamos que, quanto mais atiremos neles, mais os aviadores têm medo. Não obstante saibamos que em Quitafine, e em outras regiões, como Boé, nossos companheiros foram capazes de combater os aviões portugueses com uma coragem extraordinária, muitos não seguiram este exemplo. Em muitos lugares atrasamos nossos ataques, imobilizamos nossa infantaria durante muito tempo. Muitos carregadores de patchanga[6] foram estragados, porque, uma vez carregados, não foram esvaziados nos combates. Não fizemos os necessários reconhecimentos antes de passar aos ataques. O resultado é que, muitas vezes, durante os ataques, fomos surpreendidos pelas minas. Não soubemos traçar os planos necessários, tendo em vista os ataques: um dirigente pode definir um plano geral de ataque, mas, quando se trata de planos mais pormenorizados, os próprios comandantes, no momento do ataque, se sentiram incapazes. Portanto, não pudemos extrair o máximo rendimento desses ataques. Devemos reconhecer, por exemplo, que até hoje só fizemos prisioneiros portugueses durante dois ataques: a Cantancunda e a Bissassema. É muito pouco, tendo em vista todos os ataques que fizemos aos seus quartéis. Quando os portugueses fogem de mais de vinte quartéis, avaliamos as oportunidades que perdemos de matar ou aprisionar um grande número de inimigos. A falta de vigilância, de constância e de perseverança é infelizmente um dos defeitos característicos de nossas forças armadas.”[7]

No entanto, se os fatores de desenvolvimento capitalista são desprezados, seus efeitos são desejados como se pode constatar pelas importações de luxo feitas pelas elites africanas. Some-se a isto o fato de que a pressão demográfica continua, particularmente, na zona do Sahel que há muito já rompeu o equilíbrio de uma população tecnologicamente primitiva com seu meio natural. Desde o pós-guerra, certas regiões do mundo subdesenvolvido se caracterizam pela alta da natalidade com mortalidade em queda devido ao maior acesso a vacinas e medicamentos, o que significa no final das contas, pelo abrupto aumento do crescimento vegetativo sem correspondente incremento da produtividade agrícola.

Crescimento demográfico, instituições sociais, imperialismo interno, pífio comércio externo, falta de produtividade, ausência de políticas sociais, discriminação e superexploração feminina... São alguns ‘detalhes’ sintomaticamente negados por quem ‘ensina’ a África para nossos alunos.

Além das ideologias

Aliás, entender a geopolítica regional (e a global) segundo categorias ideológicas se torna falacioso:

“O apoio da Argélia à Frente Polisário [no Marrocos] não é devido ao respeito excepcional ao direito dos povos à autodeterminação. Como explicar o apoio de israelense, até 1977, ao regime etíope que reivindica o marxismo-leninismo a não ser pelo interesse de Israel em não ver o mar Vermelho se tornar um lago árabe? Os interesses de Estado determinam as políticas. Do mesmo modo a China de Mao Zedong apoiava a FNLA e a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), também ajudados pelos Estados Unidos e pelo Zaire [atual República Democrática do Congo] porque os dois movimentos se opunham ao MPLA, apoiado pela URSS. Se a dimensão ideológica fosse determinante, a FPLE teria sido apoiada pelos países ‘socialistas’”[8]

Da mesma forma é interessante observar a posição européia, aparentemente ambígua do ponto de vista ideológico. Quando os movimentos revolucionários africanos tinham ingrediente nacionalista era de se esperar algum apoio europeu. Mas, sua oposição aos regimes nacionalistas devido ao seu controle de capitais, os empurrava para a URSS, mesmo quando contrários ao marxismo-leninismo. Já os EUA e sua posição visceralmente contrária à influência soviética os tornava mais pragmáticos.

A ideologia é totalmente inócua para se entender a África. A geopolítica e a razão de estado é que a explica.

[1] Esta não deve ser analisada em números absolutos tão somente, mas, sobretudo na relação do contingente populacional com o meio natural e social em que se insere. Isto é, não se pode considerar deste ponto de vista o Japão um país superpopuloso, mas Bangladesh sim. Enquanto que o primeiro tem seus cidadãos provendo muito além de suas necessidades básicas, o segundo tem seu povo se esforçando para superar um limite de sobrevivência que o antepassado humano já garantira no Neolítico.[voltar]

[2] KAPLAN, Robert D. Os Confins da Terra: uma viagem na véspera do século 21. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 29.[voltar]

[3] Idem, pp. 25-26.[voltar]

[4] CHALIAND, Gérard. A Luta pela África: estratégias das potências. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 37.[voltar]

[5] Na Palestina são nove anos e em Uganda, 20. Cf. Ian Pearson. Atlas of the Future. MacMillan, EUA, 1998, p. 56.[voltar]

[6] Como chamavam a uma arma automática de fabricação soviética, o PPSM.[voltar]

[7] Amílcar Cabral apud CHALIAND. Op. cit., p. 52.[voltar]

[8] CHALIAND. Op. Cit., p. 47. [voltar]

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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