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23 Mai 2004

Piorou, e Muito!

Escrito por 

Mas se o amigo acha que não se pode conceber governante pior do que Luís Inácio Lula da Silva e que estamos no pior dos mundos possíveis, aí lamento ter de discordar.

Se o amigo acha que Lula tinha tomado uma medida truculenta pisoteando a Constituição quando da sua tentativa de cassar o visto de Larry Rohter - correspondente do New York Times - o amigo está certo.

Se o amigo acha que isto é apenas o começo das nossas dores, que o homem está apenas começando a mostrar suas garras revelando sua verdadeira personalidade fortemente autoritária, direi que o amigo não está trabalhando com uma hipótese descabida, embora eu, ainda que não esteja jogando pôquer, esteja querendo pagar p’ra ver.

 Sempre se pode conceber um status quo pior do que o que se nos apresenta, pois assim como as coisas sempre podem melhorar – pouco provável em governos do PT (Perda Total, no jargão das seguradoras) –  as coisas sempre podem piorar, e muito - num governo nepotista, nepetista ou em qualquer outro.

Quando do breve comentário sobre o lamentável episódio do soco na mesa, seguido de ardente desejo de fazer calar uma voz que irritava seus delicados tímpanos, observei que não faltou quem comparasse Lulinha Paz e Amor com o caudilho Hugo Chávez da Venezuela, aquele que os venezuelanos concientizados costumam chamar de perro de los infiernos. É claro que não se tratava de uma comparação gratuita, pois o caboclo venezuelano já tinha dado eloqüentes provas de sua truculência e de seus fortes impulsos autocráticos. Um adepto da velha Physiognomia de Lombroso diria que coisa está na cara, mas não devemos julgar as pessoas por seu repelente semblante, pois, como se sabe, por trás de uma face horro-rosa e deveras atemorizante pode muito bem se esconder uma bela alma...

Mas o fato é que no Palácio de Caracas acabou de ocorrer episódio semelhante ao que teve lugar no Palácio da Alvorada. Tendo recebido ásperas e contundentes críticas de dois jornalistas, Don Huguito de Maracaibo deu um soco na mesa, soltou fogo pelas ventas e baixou uma medida expurgando ambos de sua pátria. Da dele e da deles, pois eles não eram americanos a soldo da CIA, porém venezuelanos natos e não estavam a soldo de ninguém.  Piorou, e muito!

Já pensou se, num dia que tivesse acordado invocado, Lulinha Paz e Amor decidisse expurgar Leonel Brizola e Diogo Mainardi, só porque eles tinham servido de fonte de informa-ção para o  Larry Rohter do New York Times?! Não, não! Isto é simplesmente incogitável num regime democrático sob o estado de direito que, quero crer, seja o caso do nosso. Confesso desconhecer a Constituição da Venezuela, mas também quero crer que há na mesma algum artigo garantindo a liberdade de imprensa e outro vetando a possibilidade de expurgar filhos da terra de sua terra. E se nutro tais crenças é porque seria inconcebível a ausência de artigos desse teor em qualquer Constituição de qualquer país que, não estando com sua Carta Política baseada no Corão nem na ditadura sobre o proletariado, queira ser qualificado como democrático.

Pensava eu, na minha santa ingenuidade, que expurgos eram coisas que só ocorriam no Império do Mal e assemelhados. Como se sabe, nos terríveis anos 30 o camarada Stalin não e-ra um serial killer, mas expurgou cidadãos soviéticos em série, alguns unicamente por ter mani-festado seu desagrado em relação ao seu bigodão. E felizes daqueles que puderam ir para outro país - como Trotsky que foi para o México e caiu nos braços da bela Frida Kahlo -  não para uma aprazível colônia de férias no Arquipélago Gulag.

Mas não temos nenhuma razão para pensar que Don Huguito de Maracaibo, Caraças!, conseguirá materializar seu ardente desejo, e menos ainda para pensar que ele tenha resolvido adotar o estilo daquele facínora que atendia pelo nome batismal de Josif Vissarionovich Djugachvili, nome de guerra Koba – escrevi Koba, não Kuba - e posteriormente Stalin (em russo: “o que é feito de aço”).

Não sou Juca Pirama, mas meninos eu vi, e vi com estes olhos que a terra há de comer, e o que vi estava na Internet para quem quisesse ver (Viva a liberdade internética!): uma passe-ata  de protesto nas ruas de Caracas. Caraças! Até aí nada surpreendente, pois os venezuelanos ainda gozam do exercício do conhecido jus sperniandi, o direito de espernear. Mas lá estavam dois manifestantes levando uma faixa em que se podia ler:

PROSTITUTAS UNIDAS DE VENEZUELA,
QUIEREN HACER UMA ACLARACIÓN:
HUGO CHÁVEZ NO ES NUESTRO HIJO

Caramba, hombre! Por las barbas de Simón Bolívar, El Gran Libertador, que se no las tenía, ahora las tiene ... de molho.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 21:29
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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